Ontem ainda dentro do colégio tiveste um ataque de exigências. Chamo "ataque de exigências", quando pedes mais do que duas coisas por segundo e não esperas nada até as conseguires. Quero água, quero bolachas, quero, quero, quero.... Tenho alguma dose de paciência no bolso mas às vezes, quando passas do "ataque de exigências" para o "ataque de agora vou começar a correr por aqui fora, não me apanhas e não saio daqui" eu passo-me. Transformo-me. Acho que fico roxa! O tom de voz aumenta e o sorriso desaparece. Enquanto ralhava contigo lembro-me que nas minhas entrelinhas tu gritavas à janela: ajudem-me, ajudem-me! . Quanto tens saidas destas, não consigo continuar o discurso de mãe zangada, porque ficas simplesmente irresistível.
Às vezes penso no segundo filho. Tenho pensado muito. Vejo-te já menina e percebo que o tempo está a passar. Depois penso que ainda tenho muito tempo. Que ela ainda é muito nova. Que eu não aguentaria mais uns meses sem dormir e más noites que ainda tenho. E o dinheiro e blá, blá. Penso muitas coisas muito seguidas umas que me dizem que sim, outras que me dizem que não. Mas é algo que vem de dentro. Uma chamada... o corpo que faz tic-tac, tic-tac. Claro está que, por cauda disto, tudo o que vejo são grávidas e bebés e conversas sobre o assunto. Sei bem a importância que é ter um irmão. Já tive, já não o tenho e por isso, sei o que é ser filha única e sei o que é ter um irmão. Faz-me falta ainda hoje! Mas continuo a achar que ainda sou muito nova e tenho muito tempo.
Queria dar o salto no trabalho. Atirar-me de cabeça na direcção do que acredito muito. Mas o tempo vai passando e a coragem às vezes fica camuflada na vertigem dos dias. Por isso, há dias que sonho com isso. Sonho com o meu sonho. Talvez não tenha nenhum motivo grave ou suficientemente forte para dar o pontapé. Eu gosto das duas coisas que faço.
Queria praticar algum desporto. Anda a fazer-me falta.
Continuo a pintar, um pouco em cada dia, uma história de cada vez. E faz sentido. Hoje olhei para os meus azulejos da casa de banho e acho que vou largar um bocado a tela.
Não consigo fazer apenas uma coisa de cada vez.
Hoje é dia dos namorados. Não sei porquê, não ligo a este dia. Tenho a sensação de bando, e isso assusta-me. Comemoro, melhor, comemora-mos, mas em casa, no aconchego. Hoje devo ser eu a fazer o jantar. E o papel do não sei cozinhar foi tão bem decorado que agora nunca faço nada de jeito. A vontade não abunda!
Pediste-me para ir ter com o "Calenço" e com a "abó", para ires brincar com a Joaninha. "Ó mãe posso ir ter com o Calenço para ir bincar com a Joaninha, posso? Dá cá um beijinho"
E de tudo o que se passou, a memória que fica é do beijinho que me deste. E depois de outro e mais outro.
(e o coração cheio... )